O que vivi com Viktor Frankl #9 | Relato logovivencial de Adriana Possale

A nona edição da série “O que vivi com Viktor Frankl” é especial. Ela une as datas comemorativas de maio (a da Enfermagem e das Mães) numa só vivência: a de Adriana Possale, enfermeira de cuidados paliativos e mãe de duas meninas lindas. Nesta história, Adriana conta como entrou em contato com a Logoterapia, o que a fez se reconectar com seu sentido do cuidar. Confira!


Estou hoje, em uma tarde linda e fria de Outono escrevendo meu relato de vida, relato de logo vivente. Sou Adriana. Sou enfermeira, sou amiga, sou filha, sou mãe, sou faxineira! E dentre os vários papéis que venho a  exercer no mundo, sou em primeiro lugar pessoa. Sinto o que tu sentes! Nasci no interior de São Paulo, sou a segunda filha, sendo que meu primeiro irmão não chegou a nascer, perdas não vivenciadas de uma mãe, um casal que fez o melhor que pôde, dentro das possibilidades que eles tinham.

A vida me apresentou a Logoterapia em um dos encontros de mulheres do Põe no Mundo, onde eu buscava respostas para minhas angústias existenciais relacionadas ao casamento, a maternagem, ao trabalho em equipe dentro das instituições de saúde, ao meu posicionamento dentro desse contexto geral em se tratando da minha responsabilidade e a responsabilidade do outro, na época fui convidada pela amiga, psicóloga e coach Mayra Aiello que me apresentou para a querida Simone Guedes, diretora pedagógica do Núcleo AgirTrês.

Desde muito cedo, em minha vida pessoal e profissional tenho um sentimento que me impulsiona, algo além de mim, que me leva a buscar o melhor para mim e para o outro, é na sutileza de detalhes que encontramos no outro um pouco de nós e assim somos espelho! Me despindo das culpas e procurando humildar o Ego… Em cada bagagem uma história! Cada paciente uma memória! A dor de cada um é também a minha dor, assim procuro só espalhar Amor … Quando li a frase de VIKTOR FRANKL : “Encontrei o significado da minha vida, ajudando os outros  a encontrarem o sentido das suas vidas” entendi que os momentos vivenciados durante a doença eram também a minha cura interior. 

“A nuvem” que me orienta. Por muito tempo pensei que se trabalhasse muito iria alcançá-la, porém, estudando a ciência da terapia do Sentido de Vida observei que ela sempre estará a frente… inalcançável! Foi aí que entendi que  “O SENTIDO DA ENFERMIDADE CONSISTE EM CONDUZIR A QUEM ESTÁ TOCADO POR ELA, AO SENTIDO DA VIDA” (Jaspers, 1991, p. 19)

Hoje, após quinze anos de experiências com pessoas que vivenciam a tríade trágica (sofrimento, culpa e morte),  na experiência da dor e da doença, curso a especialização em Cuidados Paliativos no Instituto Paliar, só tenho a agradecer a todos que fazem parte da minha Vida, a todos que pude tocar o coração, possibilitando mais do que medicações e curativos, como enfermeira que sou, toquei Vidas com V maiúsculo; Em especial a Valéria Guedes, amiga que definitivamente me conduziu a esta jornada.”

Adriana Possale é mãe, coach e enfermeira com ênfase em cuidados paliativos e abordagem logoterapêutica.

O que vivi com Viktor Frankl #8 | Relato logovivencial de Claudia Mota

A oitava edição da série “O que vivi com Viktor Frankl” conta a história de Claudia Mota, que relata seu encontro com a Logoterapia a partir da Psicopedagogia e do confronto com a famosa tríade trágica de Viktor Frankl. Nesta história emocionante, Claudia compartilha como a Logoterapia a ajudou a vivenciar seu processo de luto pelo falecimento de sua filha e ainda nos dá de presente um logopoema que fez em sua homenagem. Confira!


“Em 2009 estabeleci, na escola onde eu trabalhava, um projeto de conclusão de curso. A escola tinha turmas até o 9º ano e muitos alunos estavam ali desde os 3 ou 4 anos. Entendi que de alguma maneira tinha que prepará-los para irem para o mundo. Naquela época, dando aulas de espanhol, escolhi o conto de Marina Colassanti – A moça tecelã – para iniciarmos o trabalho.

O conto fala sobre escolhas e sobre o estar na vida. A atividade foi um sucesso, os debates culminaram em um painel em que os alunos bordaram com seus nomes e fotografias, painel esse que ainda permanece na escola junto com outros trabalhos que minhas turmas fizeram até 2015, quando deixei a escola. Foi uma atividade muito significativa para eles. Anos depois, ao visitar a escola, pude encontrar um pouquinho de suas histórias ainda ressoando pelos corredores.

Sempre me angustiava quando pensava nos caminhos que aqueles meninos iriam trilhar quando saíssem dali, pois sabia, por experiência própria, que há poucos espaços para se falar sobre o sentido da vida e de escolhas no mundo atual.

É com grande satisfação e honra que por vezes encontro homens e mulheres, outrora meninos e meninas, que estão no mercado de trabalho, formando famílias e ainda têm aquele mesmo brilho nos olhos.

Sempre me sensibilizei com suas histórias e me interessava muito mais as relações, o encontro o EU e o OUTRO. Esses encontros são para mim a confirmação que acreditar e investir na educação do humano é o único caminho possível para a mudança na sociedade.

Meu nome é Claudia S. De Martino Mota, tenho 51 anos.

Sou formada em Letras pela Universidade Paulista de São Paulo e pós-graduada em Pedagogia Espírita e Psicopedagogia.

Lecionei em escolas públicas e privadas como professora de espanhol e português, também fui professora no Senai, por quase 20 anos. Nunca fiz parte da turma que se reunia na hora do café para criticar e culpar os alunos por suas dificuldades escolares ou pelas atitudes dentro da escola.

A pós em Pedagogia Espírita me possibilitou estudar e conhecer autores como Comenius, Pestalozzi e Rousseau, que tinham uma visão do homem integral, não esse homem bipartido da sociedade moderna – cabeça (intelecto) ou genitália (hiperssexualização).

Tratamos também de compreender o ser humano como espírito no seu sentido mais amplo. O estudo das diferentes correntes religiosas trouxe clareza para essa realidade que para além do senso comum, une todos os homens no que há de comum e universal o que caracteriza o humano, a dimensão espiritual.

Foi bebendo nessas fontes que cheguei a Viktor Frankl. E em paralelo com minha vida profissional, outros fatores me levaram ao encontro com Frankl.

Desde pequena era vista pela família e pelos amigos como a engraçada e risonha.

Me marcou um momento em que uma prima me perguntou por que eu era feliz. Certamente vão para mais de quarenta anos dessa pergunta e creio que hoje tenho mais solidez para essa resposta.

Há mais ou menos, três anos, nos preparativos para a concretização de um projeto ambicioso e inovador – a Terapia Pedagógica –  que nasceu dentro da Pedagogia Espírita, e tinha como intuito democratizar a terapia, tornando-a acessível ao grande público, conheci Viktor Frankl. Foi um ano intenso de preparação do projeto e as leituras fizeram parte desse período. Li um pouco sobre Freud, naquela época fazia pós-graduação em Arteterapia que tinha abordagem Junguiana, mas nada parecia me tocar mais profundamente até a leitura do livro base: Em busca de sentido – um psicólogo no campo de concentração.

Nesse mesmo ano, 2013, eu e minhas parceiras no projeto tivemos a oportunidade de participar do Congresso de Logoterapia no Rio Grande do Sul. Lembro com clareza a sensação de contentamento e de encontro de almas.

Foi nesse congresso que tive a oportunidade de ouvir Guillermo Herrera, Claudia García Pintos, Alejandro de Barbieri e outros queridos mestres logoterapeutas. Com muita alegria e satisfação percebi que a logoterapia era a chave para retomar meu trabalho com os jovens.

Ao longo dessa vida, tive que, por algumas vezes, confrontar-me com a tríade trágica narrada por Frankl. A mais pesada dessas experiências foi, sem dúvida, o falecimento da minha segunda filha aos três anos. Foi esse experimentum crucis que colocou em cheque o sentido da minha vida e me levou a tomar uma decisão: continuar a viver e ser feliz apesar da dor imensa.

Nesse momento, mais uma vez fui questionada sobre minha alegria e respondi que minha filha, mais velha, a sobrevivente, merecia ter uma mãe inteira. Foram 20 anos desde a morte de minha filha numa elaboração de luto intensa mais amorosa.

Neste ano, finalmente consegui me aprofundar na logoterapia e me sinto muito realizada em trabalhar a psicopedagogia com abordagem logoterapêutica.

Atualmente tenho um consultório onde atendo jovens e adultos no trabalho de psicopedagogia , orientação familiar e orientação vocacional com abordagem logoterapêutica.

Para finalizar minha história, compartilho aqui o poema que fiz para minha filha em fevereiro desse ano e que considero um logopoema.

Era um sábado de carnaval
Como outros tantos sábados de carnaval que ela tinha vivido
Tocavam as mesmas músicas de carnaval que ela tinha ouvido
Só que esse era um sábado diferente
Olhava ao seu redor e via a mesma gente
Buscando uma alegria numa data marcada

Era um sábado de carnaval
Mas não era um sábado qualquer
Não havia fantasia, maquiagem ou serpentina
Que pusessem de volta a alegria no seu rosto
Quem veio sem ser convidada de forma repentina
Foi ela, sem ter dado um aviso sequer

Deu o tom do sábado de carnaval
Levou sua menina
Tirou a máscara da alegria encomendada
Para aquele sábado de carnaval
E partiu sem despedida
Foi como chegou, num sábado de carnaval

Vinte anos se passaram
Daquele dia fatídico
Daquele sábado de carnaval
Vinte anos se passaram
Daquele sorriso idílico

Nas vésperas de outro sábado de carnaval
Deixo aqui meu agradecimento
Não por todo o sofrimento
Mas pela possibilidade de escolha
De uma alegria antes efêmera
Mas agora real
Depois de finalmente estourar a bolha
Viver uma vida plena
De uma felicidade serena

Não, não escolheria sofrer novamente
Mas agradeço sinceramente
Por poder encarar a vida de frente
Amar tanto e tão profundamente
E viver de uma forma mais convincente

Deixar de falar de amor e fé na teoria
Começar meu dia em cantoria
Batalhar pela harmonia do dia-a-dia
E fazer da minha vida uma alegoria
Por entender que a dor
É apenas uma das fantasias
que podemos vestir
para aprender as lições
de muitas vidas dentro de outra vida
e viver enfim, em pleno carnaval

Claudia S. De Martino Mota, psicopedagoga que atua na abordagem logoterapêutica

O que vivi com Viktor Frankl #7 | Relato logovivencial de Noely

A sexta edição da série “O que vivi com Viktor Frankl” conta a história de Noely, que ressignificou o diagnóstico de lúpus com diálogos com a obra de Viktor Frankl. Neste relato, ela recorre às principais citações de Frankl que a fortaleceram em sua busca de sentido, seja na profissão de enfermeira e professora, seja na vida, como alguém que diz sim à vida apesar de tudo. Conheça este diálogo edificante!


“Em minha história, passo a buscar um novo significado aos 18 anos de idade. Nessa idade, comecei a sentir dores nas mãos, dores que me impediam de tocar piano. Estudava e tocava o instrumento desde a infância. Descobrir que não poderia tocar mais piano e depois receber o diagnóstico de Lúpus Eritematoso Sistêmico, com todas as suas complicações, trouxe a necessidade de buscar novos significados para minha vida.

Nessa busca, encontro a enfermagem e, logo no início da graduação, tenho a oportunidade do encontro com minha mestra Margareth Angelo, que me ensinou que

“Fazer enfermagem é uma oportunidade de estar na primeira fila de um espetáculo chamado experiência humana em saúde. Para algumas pessoas, estar na primeira fila pode significar estar mais perto para presenciar dor e sofrimento, mas para mim tem um significado bastante diferente. Estar na primeira fila representa para mim a possibilidade de testemunhar como a vida, a experiência humana é bonita e grandiosa. É ver de perto como o homem pode transcender os obstáculos e crescer justamente por causa deles.”

Como amei essa enfermagem!!!

Eu não podia ensaiar a vida, tinha que acontecer. Eu me considerava a enfermeira já no primeiro estágio, eu tinha que dar o melhor, não era para ser a melhor, mas queria marcar a minha passagem, queria transformar os lugares por onde passaria. A minha mestra que teorizou os meus sonhos dessa enfermagem que sente o outro, me colocou em contato com teorias que faziam minha prática cada vez mais humana e ao mesmo tempo me transformava como pessoa, possibilitava encontros com as diferentes experiências de vida que me ensinavam a ser a melhor enfermeira do mundo, mas que primeiro me ensina a ser.

Meu encontro com Viktor Frankl aconteceu logo após a minha formatura, quando fiz o curso “A morte na prática do seu cotidiano”, no Instituto de Psicologia da USP, com Maria Julia Kovacs. Nesse curso realizei a leitura do livro, Morte e desenvolvimento humano. No capítulo sobre o idoso, Rosenberg apresenta Viktor Frankl. O fascínio foi imediato. Nessa época, no meu primeiro emprego na Clínica Médica do Hospital Universitário da USP, testemunhando a dor e o sofrimento de pacientes terminais, em sua maioria idosos, as lições de Frankl passam a qualificar a minha assistência ao mesmo tempo que qualificam minha vida.

Este ano, 2018, completo 20 anos de formada. Ao longo dos anos tive que mudar várias vezes os meus sonhos, não me rendendo à doença, mas aprendendo respeitar as limitações e a realidade. Muitas vezes era difícil abandonar o que o me fazia feliz, mas quando me rendia o milagre acontecia porque era mais uma missão que acenava. Não é “o que eu espero da vida, mas o que a vida espera de mim”, era entender qual a missão Deus me entregava.

O que vivi com Viktor Frankl…

Quando encontrei a Logoteoria e Análise Existencial já fazia um exercício de transformação do meu sofrimento, talvez pela minha vivência religiosa e espiritual, pelo meu amor à arte e à natureza e pela minha profissão que me permite me dedicar ao outro. Acredito que tinha um caminho de transformação da dor, mas meu encontro com Viktor Frankl passa a reforçar essa busca, traz reflexões, me incentiva, faz acreditar que pode dar certo, me fascina. Assim começam os nossos encontros: converso com Viktor Frankl primeiro para discutir minhas dores, minhas perdas, mas como ganho e sou feliz com minha profissão, mesmo buscando outras formas de exercê-la por causa do curso da doença.

Depois, Viktor Frankl me ajuda a qualificar minha assistência, primeiro com meus idosos, ajudando o outro a se despedir da vida, o impacto nos meus alunos, agora que ser enfermeira é ser professora, promovendo a vida dos pacientes com câncer, ajudando as crianças que vivenciam ou que sobreviveram ao câncer, ensinando aos meus alunos que promover saúde é fortalecer a dimensão noética e que competência profissional está relacionada com espiritualidade.

Essa trajetória de adaptações e prazer é possível porque Viktor Frankl me contou que “uma religiosidade sadia pode me direcionar a um relacionamento com o criador nos tornando abertos ao outro e à transcendência” e assim “dizer sim à vida apesar de tudo”. Que “o ser precisa ordenar-se em direção a algo ou a alguém: entregar-se a uma obra a que se dedica, a uma pessoa que ama, ou a Deus, a quem serve”. Também me ensinou que:


“o ser humano não apenas reage aos contingentes internos e externos, mas responde a eles, e, ao escolher dar uma resposta à vida, torna-se responsável pelo que vai ser no momento seguinte e que a vida é concebida, nessa perspectiva, como uma tarefa ou um dever, no qual cada ser humano é confrontado com uma ação específica no mundo, pela qual ele se torna único e insubstituível“. (Viktor Frank)

Ele enfatizou ainda:

“que inerente ao sofrimento, há uma conquista, que é uma conquista interior. A liberdade espiritual do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até o último suspiro, configurar sua vida de modo que tenha sentido. A pessoa está colocada diante da decisão de transformar sua situação de mero sofrimento numa realização de valores.” (Viktor Frankl)

Ele também me garantiu que:

a felicidade precisa surgir, ela é efeito colateral, um subproduto e precisa permanecer um subproduto da realização de um significado, de uma razão de ser na vida, de sua dedicação a uma tarefa, de um significado, de uma razão de ser na vida, de sua dedicação a uma tarefa, uma causa maior do que você mesmo, ou a uma pessoa outra que não você mesmo”. (Viktor Frankl)

Em nossas conversas, entendi que Deus não me deu um corpo perfeito, saúde e plena capacidade física, mas o que de mais importante um ser humano precisa Ele me deu: capacidade de olhar o mundo, absorver teorias, pensar transformações. Me deu plenitude mental que me permite amar o que faço, amar a vida. Me deu fé que faz não apenas acreditar na Sua graça, mas amar a graça, amar mais a graça do que a vida. E quando você tem essa relação de fé com o seu Deus criador, você ama amar a vida pelo o que você pode produzir, porque Deus é amor e só podemos ver a Deus amando o outro, como bem disse o apóstolo João, e assim podemos ‘estar no mundo’, ressignificando problemas como desafios. A doença, portanto, passa a ser apenas um detalhe não para perda, mas para crescimento.

O mais significativo que Viktor Frankl me contou é que “cada pessoa tem uma instância que a doença jamais conseguirá atingir, a espiritualidade imaculada. O Deus vivo na intimidade da pessoa humana, o ponto de partida da fé que temos em cada pessoa”.

Por muito tempo, nossos encontros foram solitários, mas agora tenho uma rede de amigos logoviventes para termos rodas de conversa e crescermos juntos nessa busca do sentido.”

Noely Cibeli Santos

 

O que vivi com Viktor Frankl #4 | Relato logovivencial de Maria Matilde Fenocchi Guedes

A quarta edição da série “O que vivi com Viktor Frankl” conta a história de Maria Matilde Fenocchi Guedes desde a infância no pós-guerra, a chegada ao Brasil, sua vida e encontro com a obra de Viktor Frankl e sua viagem à Itália, num reencontro com sua família. Imperdível!

O DIA EM QUE ENCONTREI VIKTOR FRANKL – COMPREENDI A GUERRA EM MIM

Nasci em 1948 na Itália, no pós-guerra numa pequena cidade, Montese, nas montanhas de Modena (perto de Monte Castelo), onde foi vivida a brutalidade e destruição da 2ª Guerra Mundial. Essa região ficou totalmente devastada. Sou a 2ª filha de um casal que, assim como os outros moradores da região sofreram muito durante a guerra e continuaram a sofrer no pós-guerra, visto que a cidade, as casas e os campos estavam destruídos. Como retomar o dia a dia da vida que conheciam?

No livro  Em busca do sentido, Viktor Frankl fala sobre a vivência do prisioneiro no que define de 3ª fase, após a libertação, quando as pessoas podem voltar para as suas casas e não encontrarem nem a casa, nem aqueles a quem esperavam ansiosamente reencontrar. Percebem que é possível sofrer ainda mais, ao ter que lidar com o desemprego e as necessidades da vida cotidiana. Passado o sofrimento inicial algumas pessoas conseguem buscar força dentro de si e se reorganizar.

Uma das possibilidades que surgiu para os meus pais se reorganizarem foi a migração. Em fevereiro de 1951, meu pai migra para o Brasil! Todo o processo de migração dependia de órgãos governamentais que convocavam para o embarque de um dia para o outro. Ou seja: inscrito para migrar e aceito pelo Departamento de Migração, o candidato deveria estar sempre com o baú em ordem, pois poderia ser chamado para partir de uma hora para outra. Meu pai parte da Itália, deixando na casa dos seus pais, uma jovem esposa e 3 filhos pequenos (o mais novo com apenas 2 meses de idade). Com todas as angústias e dúvidas: quando se reencontrariam? Para onde eles iriam? O que os espera? Onde é o Brasil?

A família fica assim, à espera, seguindo a vida com dúvidas, angústias, forças e fraquezas. A esposa e os filhos aguardando a chamada para o embarque. Após feita essa escolha, honrá-la e responsabilizar-se por ela, buscar dentro de si o que pode ajudar a desenvolver a resistência para suportar o necessário para ir reencontrar seu marido e juntamente com os filhos se desenvolverem e poderem honrar todo o vivido.

Dia 5 de maio de 1953, no meu aniversário de 5 anos, ganho de volta um pai. Desembarcamos, os 4, no porto de Santos. A lembrança que tenho é de confusão, muitas pessoas e um homem que me abraça chorando e me chama de filha. Lembrança viva e forte junto com um caos de não compreender nada do que falavam, por muitos meses fiquei sem entender, não compreendia ninguém, não tinha amigos e os meus avós me perguntavam “cadê eles?”

Meu primeiro amigo brasileiro foi o bêbado do bairro, nos entendíamos, o dialeto dele era igual ao meu. Até hoje admiro e agradeço minha mãe por permitir que eu ficasse no portão do sítio conversando com ele, tivesse um amigo. Tudo isto vivido lá atrás e as vivências e experiências fortes reverberando dentro de mim com 69 anos vividos, formo esta mulher que sou hoje: esposa, mãe, avó que tem como hobby trabalho com pérolas e espelhos. Sou psicóloga, formada em 1973 e Logoterapeuta em formação.

Fui por 21 anos (de 1991 a 2012) diretora de uma empresa familiar, empresa de ônibus, e sei que fui uma boa diretora. Foi muito difícil tomar posse da empresa por conta de uma fatalidade e luto. Um dos 3 irmãos sócios, o mais velho sofre um acidente e morre aos 45 anos de idade. Assumi a diretoria! Vivi isto como uma imposição da vida…, precisei …, fui obrigada… saudosa cuidei de três famílias, demorei a entender que foi minha escolha. Entendi com Viktor Frankl: tive sim liberdade de escolha, poderia continuar com meu caminho como vinha sendo traçado ou me distanciar e olhar o todo e escolher fazer como fiz, mesmo chorando e sofrendo em muitas ocasiões.

Em 2012 vendemos a empresa e eis-me solta na vida profissional. Que fazer? Como? Para queê? Em respeito à minha natureza, volto para a psicologia, profissão que tinha exercido até 1991. De 2012 até início de 2014 vivi “titubeante”, não me reconhecia: “tudo estava bem”, mas “nada estava bem”. Sentia um vazio, “uma dor na alma”, este vazio aumentava dia a dia, de repente se aquietava e logo quanta dor, em seguida quanta esperança e assim ia, dia a dia. Até que fui presenteada por minha filha, que também é psicóloga, ela me fala de Viktor Frankl e da Logoterapia, ofereceu algumas referências e fui procurar…fuçar…buscar.

Me encantei, fiz um curso à distância e vi que estudar e praticar a Logoterapia seria do meu tamanho exato… Vamos lá…1º passo: busquei Logoterapia para mim, encontrei um Logoterapeuta amoroso, duro e com a gargalhada que ganha da minha (olha que a minha é suficientemente vivaz, escandalosa e marcante).

Juntamente com a terapia, busquei e aceitei participar de cursos, congressos, estudos, grupo de formação, lá fui eu aproveitando e sendo aproveitada. Primeiro convite que recebo foi de participar de um encontro de Logoterapia e análise existencial em São Paulo com Aureliano Pacciolla, que foi aluno de Viktor Frankl e ITALIANO, (agora o bêbado fala minha língua) vejam … a Logoterapia chega no meu quintal! Assim começo meus estudos e formação de Logoterapeuta!

Nesta época, em natural ato contínuo, conheci o Núcleo de Logoterapia AgirTrês, que o meu terapeuta, juntamente com sua mulher (eita!!!! mulher forte! decidida! clara! e trabalhadora!) administram na busca do desenvolvimento da Logoterapia no Brasil.

Para entender, estudar e me desenvolver em Logoterapia, a primeira exigência foi ler o livro de Viktor Frankl Em busca de sentido. Quanta angústia e quantas passagens eu compreendia na alma, nas emoções, lembranças e passagens que estão marcadas forte em mim! Foi preciso 3 longos meses para lê-lo, quanta dor, cenas de desespero, parecia que eu já as tinha vivido, senão concretamente, as conhecia de tanto tê-las ouvido desde sempre!

Sei que fui ninada ao som de músicas de guerra, as clássicas histórias infantis não existiram, mas passagens dramáticas vividas por todos me eram seguidamente contadas com a dramaticidade cabível e na época não entendia o porquê esticarem tanto. A guerra acabara, mas para todos que a viveram na sua dramaticidade ela não acabara, todos se sentiram e muitos ainda se sentem em luta, presos nos seus privados campos de concentração.

Em julho de 2017 numa viagem pela Itália em visita aos meus parentes (são muitos primos, alguns tios e filhos dos primos etc.), visito a casa onde nasci e vivi os 4 primeiros anos da minha vida (aí é outra história que fica para outra ocasião). Numa linda noite de verão, convidados por primos, fomos comer pizza a céu aberto numa colina em Bologna (Colina della Chiesa di San Lucca). Pizza ótima, vinho espetacular, papo delicioso, deliciosas risadas. Eu me atenho mais a uma conversa com um dos primos mais velhos (nasceu em 1945), lembramos da nossa infância, na época éramos muito próximos, com este primo já me encontrei várias vezes na Itália, não sei nem como, nem porque, nem para quê, mas neste dia a conversa tomou o rumo saudosista, ele me pergunta como foi o sair da Itália, como chegamos ao Brasil, como vivemos este começo? Falo da solidão, de não entender ninguém, da saudade dos avós, dos meus brinquedos (nenhum foi trazido, por causa do volume, ficou tudo lá), comento mais algo e de repente ele se põe a chorar, me abraça e diz: “você não imagina como nós sofremos, minha mãe chorava todos os dias de saudade e de angústia, sem saber como vocês estariam! Será que chegaram no Brasil? Será que encontraram o Erio (meu pai), será que se perderam uns dos outros?” A 1ª. carta a chegar do Brasil para a Itália demorou mais de 5 meses!

Este momento me permitiu viver o que Viktor Frankl relata na 3ª fase após a libertação, sobre a psicologia do recém-liberto: no reencontro dos prisioneiros com as pessoas da cidade que não foram aprisionadas, relata que a dor dos que ficaram era tão forte ou maior do que as de quem viveu todos os males dos campos de concentração.

Maria Matilde Fenocchi Guedes matildeguedes@uol.com.br