*Mensagem Nº 14* – 15/05/2017

Os refugiados traçaram o caminho que me levou à Logoterapia – por Ana Maria Turk

Trabalhei durante quase 7 anos em Bruxelas como tutora de mais de 80 jovens menores de 18 anos em busca de asilo político, que chegavam à cidade sozinhos e sem documentos. Neste artigo, compartilho a experiência desse trabalho, que me levou à Logoterapia e me permitiu utilizá-la na prática.

Os refugiados traçaram o caminho que me levou à Logoterapia – por Ana Maria Turk

Boa leitura!

Abraços e até breve!

Simone Guedes

Os refugiados traçaram o caminho que me levou à Logoterapia – por Ana Maria Turk

Ana Mar

Trabalhei durante quase 7 anos em Bruxelas como tutora de mais de 80 jovens menores de 18 anos em busca de asilo político, que chegavam à cidade sozinhos e sem documentos. Neste artigo, compartilho a experiência desse trabalho, que me levou à Logoterapia e me permitiu utilizá-la na prática.

Esses jovens chegam à Bélgica fugindo de situações-limite, por questões políticas, culturais, narcotráfico, entre outras e logo são acolhidos em centros onde são acompanhados durante todo o período de tramitação para a legalidade por educadores, assistentes sociais e psicólogos, além de passarem por um processo educacional, aprendendo a língua do país e conhecendo a nova cultura.

A função do tutor, que, no caso, é designada por um serviço dependente do Ministério de Justiça belga, é ser uma pessoa de confiança e contenção, alguém que acompanhe os jovens nas audiências e durante todo o processo legal até a obtenção do asilo. O objetivo desse trabalho de tutoria é auxiliá-los a obterem o direito de ficar na Bélgica como refugiados com asilo, proteção subsidiária ou com permissão de residência.

O trabalho do tutor contempla muitos elementos jurídicos, bem como sociais e psicológicos. Por esse motivo, para uma melhor preparação do tutor, o serviço de tutelagem oferece seminários de formação em Direito de Imigração e também apoio e formação psicológica.

A Bélgica, por ter sido um país colonizador na África e que conhece mais de perto a realidade política e social de diferentes países no continente, tem uma trajetória muito importante no que diz respeito à questão do asilo político. Muitos africanos na Bélgica gostam de visitar o bairro Matongue-Ixelles de Bruxelas que representa um ponto de encontro em que podem sanar suas necessidades culturais, como relacionamento, culinária do país de origem e contato com o idioma materno.

Durante os anos em que trabalhei como tutora, recebi jovens das regiões de Burundi, Guiné-Conacri, Congo, Nigéria, Tanzânia, Somália, Camarões, Marrocos, e também alguns latino-americanos (mexicanos, colombianos e salvadorenhos), que chegavam à Bélgica, principalmente, devido a problemas com narcotráfico. Os poucos brasileiros, em geral da região de Goiás, vinham por conta de problemas familiares e eram apoiados por grupos de brasileiros imigrados na década de 1960. Mais recentemente, aumentaram o número de jovens sírios e afegãos, por razões óbvias da guerra.

As meninas africanas que chegavam à Bélgica demandando asilo vinham, geralmente, por problemas de matrimônio forçado pelo pai, casos de mutilação feminina (ablação) e por serem identificadas com questões relacionadas à bruxaria. Elas não compreendiam por que seus pais lhes forçavam a se casar tão jovens quando ainda estavam estudando e não recebiam ajuda de suas mães, que foram vítimas dessa mesma situação no passado. Em muitos países da África, a bigamia é uma prática legal, então o nosso trabalho de tutoria também abrangia aceitar os costumes que elas traziam da cultura de origem e transmitir-lhes os valores da nova cultura em que estavam se inserindo.

As experiências vividas durante o trabalho com cada um desses jovens me levou a buscar a formação em Logoterapia. Com o sofrimento inevitável que carregavam, era fundamental ajudá-los a achar um caminho e transmitir-lhes que, apesar de todo a jornada difícil, a vida continuava valendo a pena e pedia que eles lutassem e seguissem em frente.

Como eu podia motivá-los a acreditar na vida? Na busca dessa resposta, acabei conhecendo o Em busca de sentido (El hombre en busca de sentido), e conheci a história de Viktor Frankl e seu trabalho com a Logoterapia. Não podia ter encontrado melhor motivação para me especializar nessa área: ajudar aqueles jovens a reencontrar a vontade de viver.

Quando um homem descobre que o destino dele é sofrer, ele tem de aceitar esse sofrimento porque ele se converte na sua única e peculiar tarefa.  Além do mais, esse sofrimento concede o caráter da pessoa para ser única e irrepetível no universo. Ninguém pode redimir-lhe esse sofrimento, nem sofrer no lugar dele. Nada serve, nem mesmo o sofrimento: este se personifica segundo a atitude adotada frente a esse sofrimento que a vida lhe oferece como tarefa. (Viktor Frankl, El hombre en busca de sentido, p. 140)

A situação era tão ruim que muitos jovens nem sabiam o que havia acontecido e como tinham chegado à Bélgica, inconscientes da própria tragédia. A minha função nessas situações era, inicialmente, procurar um advogado especialista em menores e tramitação de asilo. Trabalhando junto com os advogados e assistentes sociais e gerando muita confiança, as histórias se formavam e muitos jovens entendiam o que havia acontecido e como tinham chegado aonde estavam. Então, eu trabalhava com eles os conceitos fundamentais da Logoterapia, a fim de que eles aprendessem a aceitar o sentido do sofrimento inevitável. Uma vez entendido esse conceito, só lhes restava mudar a atitude para reencontrar o novo sentido para suas vidas. Tomando essa consciência, e com nosso apoio, eram capazes de mudar essa situação enfrentando o sofrimento com dignidade e coragem. Era essencial acompanhá-los no autoconhecimento da vida passada em sua terra natal e da vida presente e futura que teriam no novo país e na nova cultura. Fui transmitindo a eles que a vida se constitui num drama, pois é uma luta frenética com as coisas e inevitavelmente todos os seres humanos passam por sofrimentos. Na ocasião, eu lhes contava a história de Viktor Frankl nos campos de concentração, de todos os vínculos que o psiquiatra austríaco havia perdido e da força que ele teve para continuar lutando pelo sentido da vida, uma vez que viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correta aos problemas e cumprir as tarefas que a vida designa continuamente a cada indivíduo.

Em última instância, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correta das questões que a existência planteia, cumprir com as obrigações que a vida nos assigna em cada instante particular. (Viktor Frankl, El hombre en busca de sentido, p. 137)

A Logoterapia defende a ideia de que devemos seguir em frente com a vida, já que a primeira força motivadora do ser humano é a luta por encontrar um sentido à própria vida.

Dessa forma, acompanhar os jovens e auxiliá-los a desenvolver competências para solucionar os problemas, negociar e pedir ajuda foi essencial para que, como indivíduos, eles pudessem assumir e responsabilizar-se por sua história. Assim, contribuímos para a retomada de consciência do seu próprio valor, ajudando-os a serem mais autônomos e apoiando-os de forma a promover vínculos construtivos baseados no respeito, na empatia e na reciprocidade, bem como incentivamos a vontade e a capacidade de desenvolver novos projetos.

Por meio da Logoterapia, que nos oferece um novo olhar para uma nova atitude, minha função era apoiá-los a encontrar um novo posicionamento diante do que lhes havia acontecido e, pouco a pouco, orientá-los para que pudessem enxergar os acontecimentos de uma nova perspectiva e se tornassem conscientes de sua nova liberdade e possibilidade.

Todos os jovens devem aprender a se autoprojetar, isto é, serem capazes de se visualizarem no futuro. Poder imaginar que existe um futuro desperta a motivação intrínseca do jovem. E nós acreditávamos junto com cada um deles na possibilidade do asilo político, porém, sempre conscientes da realidade, pois nem todos podem receber o asilo. Contudo, o tempo da espera, do processo pelo asilo é um tempo de ouro que lhes permite um novo olhar sobre si mesmos. Por isso, foi importante conscientizar os jovens refugiados de seus poderes internos, que até então estavam ocultos, e capacitá-los a projetar seu novo futuro. Assim, fomos proporcionando a eles a oportunidade de reavaliar a situação vivida, e pudemos conduzi-los a novas possibilidades.

Para Frankl, cada situação da vida carrega um sentido oculto a ser encontrado. Uma vez descoberto, esse sentido ajudará a definir o sentido geral da vida. Orientar os jovens a encontrar seu sentido de vida e seus valores, além de permitir a ressignificação de seu passado, ajudou-lhes a analisar sua existência a partir da perspectiva de sua responsabilidade, princípio básico da Logoterapia.

Contribuímos para que eles percebessem que nada é irreparável e que cada indivíduo deve encontrar seu sentido a partir de sua consciência atual, pois suas recordações vão refletir as decisões e comportamentos do presente. Revisar e reavaliar a vida nos ajuda a melhorar, a alterar ou a manter atitudes e condutas. Assim, trabalhamos com eles o apego ao passado e a ansiedade da incerteza em relação ao futuro. O trabalho com os jovens refugiados foi, em síntese, pôr em prática a ideia de uma nova vida para cada um deles.

A Logoterapia, de Viktor Frankl, me ensinou que o sentido do sofrimento tem o sentido de colocar o ser humano diante de duas tarefas:

  1. tratar de configurar o sentido, quando for possível;
  2. tratar de suportá-lo, quando necessário.

A capacidade intuitiva e a consciência ética de que Viktor Frankl nos fala é a capacidade que cada pessoa tem de perceber o sentido irrepetível e único escondido em cada situação.

A formação em Logoterapia foi para mim um apoio para ajudar esses jovens refugiados a encontrar novamente um caminho em suas vidas, bem como a compreender e aceitar suas histórias, o que era um grande passo. Com a chegada da adolescência somada às dificuldades da perda e distância do círculo social e afetivo, nosso trabalho foi plantar, pouco a pouco, novas sementes para o futuro.

O trâmite de asilo pode levar de 6 meses a vários anos, um período de muita incerteza para eles. Em muitos casos, o asilo pode ser indeferido, exigindo a interposição de recurso, tornando o processo muito complexo. A inquietude, a insegurança, a questão identitária e racial eram os desafios que esses jovens precisavam enfrentar sozinhos.

Para isso, contamos com o apoio do Centro de Exílio de Bruxelas, criado por Jorge Barudi, neurologista e psiquiatra chileno. Trata-se de um centro de apoio psicológico em que os jovens refugiados fazem terapia e participam de encontros de grupos para conhecer outros jovens que passam pela mesma situação, de forma a criar uma contenção de danos e uma rede de apoio na situação de asilo. Os educadores e assistentes sociais dos centros de acolhida têm como principal missão estimular os jovens a construir sua nova vida.

Os transtornos provocados pelos traumas e a necessidade de ajudá-los a desenvolver a capacidade e a coragem de resistir e fazer o impossível para que suas experiências não determinassem de forma negativa suas vidas foi o que me levou à Logoterapia. Para ajudá-los a encontrar essa ponte de salvação, eles precisavam se sentir cercados de amor, solidariedade e espiritualidade.

O desenvolvimento do sentido da vida, por meio da vontade de sentido da qual nos fala Viktor Frankl, ajudou os nossos refugiados, tanto adolescentes como jovens adultos, a superarem seus traumas e feridas.

A primeira força motivante do homem é a luta por encontrar um sentido na vida. Por isso aludo constantemente à vontade do sentido, em contraste com o princípio do prazer (poderíamos chamá-lo vontade do prazer), que rege a psicanálise freudiana como com a vontade de poder que enfatiza a psicologia de A. Adler. (Viktor Frankl, El hombre em busca de sentido, p. 126)

O asilo político foi o momento no qual precisaram começar a construir sua resiliência. A atitude frente às situações vividas estimulou a reparação dos danos causados, pois conseguiram traçar os entornos interpessoais e sociais que lhes ajudaram a reconhecer que o importante era ter uma atitude positiva e estar rodeado da solidariedade oferecida por novos amigos. A ferida traumática precisava ser compreendida; a autoestima, recuperada; e a confiança, restaurada para que eles voltassem a achar o sentido da vida.

Achar o sentido da vida é necessário na vida cotidiana e pode se tornar indispensável em situações de crise. Vislumbrar um possível sentido à dor conduz o ser humano a encontrar uma maneira de atravessar seu túnel obscuro com a esperança de achar a luz no final.

Lamentavelmente, dada a situação atual, não é possível ajudar os refugiados afetados pela indiferença e rejeição dos muitos governantes europeus. A atitude geral de muito países europeus atualmente não contribui para que os refugiados possam sentir o apoio e recuperar o vazio existencial que sentem por conta das guerras em seus países de origem. A solidariedade empática a eles, a expressão artística, o humor, a ilusão e a espiritualidade são quesitos básicos para ajudá-los a encontrar seu sentido de vida. Apesar de tudo, acredito que continuar transmitindo as ferramentas de Logoterapia é fundamental para auxiliar todos indivíduos, sobretudo em situações-limite, a voltar a achar o sentido e a vontade de viver, pois, como afirma Nietzsche, “quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como”.

Ana Maria Turk é educadora, geógrafa, psicogerontologa e especialista em Logoterapia. Contato: Info@cambialamirada.com

 

AgirTrês convida: Ana Maria Turk e seu trabalho logoterapêutico com refugiados na Bélgica

Encerramos o mês de março com a visita da especialista em Logoterapia Ana Maria Turk, que compartilhou conosco seu trabalho logoterapêutico com jovens refugiados na Bélgica e agora também com mulheres brasileiras vítimas de violência doméstica. Em breve, teremos um artigo exclusivo de Ana Maria em nosso blog contando sobre sua experiência como tutora de jovens refugiados na Bélgica e como a abordagem logoterapêutica auxiliou esse trabalho inspirador. Aguardem!